III CONEPEd possibilitou três dias de debates entre editores de periódicos da Educação na UFRN em Natal

texto e imagens por João Marcos Veiga

Congresso Nacional de Editores de Periódicos da Educação, promovido pelo FEPAE. trouxe mesas de debate, conferências e apresentações de trabalhos com amplo panorama da área

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte recebeu durante três dias uma programação de debates, formativa e de importante troca de experiências entre editores de periódicos das cinco regiões do país. A terceira edição do CONEPEd, retomando a realização de encontros presenciais do congresso, mostrou a abrangência dos temas envolvidos, como ética na pesquisa, financiamento, indexadores e divulgação. As atividades igualmente reforçaram a solidariedade entre as publicações e reconhecimento de trajetórias pioneiras no país.

O encontro, após a edição de Florianópolis em 2019 e online em 2021, foi marcado pela presença de editores de diferentes gerações, reconhecimento de trajetórias e publicações - como a Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, primeira do gênero criada pelo INEP em 1944. Presente em todo evento, Marta Araújo, professora da UFRN, à frente da Educação e Perspectiva há 17 anos, foi a primeira editora da região nordeste, orientando pesquisadoras hoje em posição de destaque e sempre ajudando novas publicações. “Nós agimos com solidariedade para apoiar revistas da região em 2005, aqui mesmo na UFRN, num momento difícil de avaliação. Então com essa solidariedade e debates criamos bases para esse CONEPEd que acontece agora”, relembra. O encontro teve organização geral conduzida por Olivia Morais de Medeiros Neta (IFRN) e Rosimeri de Oliveira Dias (UERJ),  coordenadora e vice do FEPAE Nacional.

Na plateia do congresso, se viam jovens rostos e outros tão queridos da comunidade da Educação, como de Ivanilde Apoluceno (UEPA), editora da Revista Cocar. Claudio Nunes (UESB), além de vice-presidente da ANPEd pela região Nordeste também representava ali a revista Redupa (Revista Educação em Páginas), caçula do FEPAE - com menos de um mês no ar ela já conta com cerca de 10 mil acessos. Outros participantes também destacaram a qualidade geral do evento. Erika Dias, editora da revista da Cesgranrio, celebrou o fato desta edição ocorrer no Nordeste, o que dá visibilidade e apoio às importantes publicações da região. “Este pra mim foi o melhor encontro dos três do CONEPEd, com ótimas mesas, estrutura da universidade e clima excelente entre os participantes”, avaliou.

Assista vídeo de balanço do encontro pelas coordenadoras do III CONEPEd.

O Congresso foi organizado pelo FEPAE - Fórum de Editores de Periódicos da Área de Educação - instância mais jovem da Associação, com 11 anos de existência -, com apoio da Revista Brasileira de Educação (RBE) e da diretoria ANPEd Mais Presente. O fórum atualmente conta com cerca de 150 revistas, em sua grande maioria vinculadas a programas de pós-graduação em Educação de universidades públicas do país . Acesse o diretório para conhecer todas as publicações. 

Logo na abertura do evento, no belo prédio da Reitoria da UFRN, Olivia Medeiros Neta, coordenadora do FEPAE, recorreu ao escritor moçambicano Mia Couto para destacar a necessidade do encantamento para manter viva a chama do ofício de editor frente a tantos desafios políticos e de desfinanciamento para a área. Junto a representantes da instituição potiguar, Geovana Lunardi, presidenta da ANPEd, chamou a atenção para o papel fundamental do Fórum dentro da Associação e para o campo das publicações científicas em Educação.

E foi exatamente um panorama deste cenário dos periódicos o que se viu na rica programação do congresso, que promoveu quatro mesas temáticas, três conferências e apresentações de trabalhos. Na primeira conferência, Abel Packer, fundador do SciELO, trouxe um retrato da produção da área, que tem grande presença dentre as revistas das Humanidades (11%) - sendo responsável por 3% da produção de conhecimento nacional - e também frisou entraves de se alcançar uma maior indexação, diminuição do tempo entre submissão e publicação, um maior empenho em prol da ciência aberta.

Na sequência, Lia Machado Fialho (UECE) também apontou tais desafios, incluindo a internacionalização, mas chamou a atenção para o fazer dos editores, com a necessidade de um aprimoramento a partir de planejamento, uso de redes sociais e corpo de avaliadores qualificado. A vice-presidente da ABEC (Associação Brasileira de Editores Científicos) igualmente destacou a importância de fatores como saúde mental da equipe editorial em tempos de pandemia. 

A primeira mesa de debate do III CONEPEd trouxe grandes pesquisadores para abordarem os desafios dos periódicos neste atual momento. Jefferson Mainardes (UEPG / FEPAE Sul) apresentou reflexões tais como a importância de ter as questões éticas em primeiro plano, o uso de bibliografia recente, de se implementar  uma comunicação não violenta nos processos entre editores e autores e que estes conheçam e acompanhem índices das revistas. Já Elizeu Clementino (UNEB), editor da RBE, chamou a atenção para a necessidade de se pensar em rede e dar tempo aos processos, frente a exigências diversas sobre os editores e revistas e igualmente num contexto de desmonte democrático e desfinanciamento. Por fim, destacou a necessidade de refletirmos sobre a circulação e apropriações do conhecimento a partir de uma história do tempo presente. Olivia Medeiros (UFRN), coordenadora do FEPAE Nacional, mostrou o crescimento das publicações da área desde 2013 até hoje, totalizando atualmente cerca de 150 revistas, sendo 9 criadas de apenas de 2020 pra cá. Mas igualmente apontou tensões, como a pressão por internacionalização e a melhora de notas no Qualis - para ela, este deve ser encarado como um parâmetro e não como finalidade da existência das publicações

A Ciência Aberta também foi tema de debate do congresso, contando com a presença de Dante Cid (Elsevier), Suzana Gomes (UFMG) e Sigmar Rode (ABEC), com mediação da vice-coordenadora do FEPAE, Rosimeri de Oliveira Dias (UERJ). Segundo os participantes, trata-se de um caminho sem volta, potencializado no período da pandemia, que traz mais visibilidade às pesquisas, retorno de conhecimento à sociedade e uso de novas ferramentas colaborativas. O principal exemplo apresentado foi o Preprint, em que o artigo é disponibilizado em plataforma pública antes de ser publicado - o SciELO vem incentivando tal política de publicação. A ciência aberta coloca uma quebra de paradigmas e a necessidade de uma nova cultura de práticas por editores e revistas. Os convidados e igualmente a plateia da atividade, no entanto, evidenciaram a necessidade de investimento e fomento público frente aos altos custos deste caminho, além de melhor diálogo entre os próprios indexadores, possibilidade de inserção do Preprint no Lattes e superação de outros entraves, como o ineditismo exigido por muitas revistas.

Outro tema abordado foi a indexação e base de dados dos periódicos da Educação, levando à plateia experiências e desafios em torno da questão. Filomena Arruda Monteiro (UFMT), do FEPAE CO, apresentou uma história sucinta do papel dos periódicos e abordou o contexto do Centro-Oeste, onde apenas 1 das 22 revistas do Fórum está na base SciELO, 7 na Educ@ e as demais se dividindo entre outros indexadores. Na sequência, Clarilza Prado e Nelson Gimenes apresentaram a Educ@, indexador criado em 2010 com apoio da Fundação Carlos Chagas com intuito de ampliar a valorização de sujeitos e objetos, disseminar conhecimento de forma online, aberta e com coparticipação democrática. Atualmente com 60 revistas e 34 mil artigos, a Educ@ vem sistematizando um conjunto de indicadores para auxiliar publicações na tomada de decisões. Dentre os indicadores levantados a partir do banco de dados, estão informações de produção, impacto, ligação entre instituições, clivagem de gênero dos autores, tipos de documentos mais referenciados e tempo médio de aprovação de artigos. 

Em aguardada mesa intitulada "Os Periódicos resistem? (Des)financiamento, Ética e Sustentabilidade", o público do III CONEPEd acompanhou um qualificado debate no auditório da reitoria da UFRN. Ângelo Souza (UFPR), coordenador adjunto da Educação na Capes, abordou o desafio de se expandir  o número de periódicos com qualidade, trazendo dados da última avaliação. Souza também falou sobre a possibilidade de descontinuidade do Qualis periódico pela Capes (devido à judicialização imposta pelo Ministério Público desde o ano passado) e a necessidade de discentes publicarem mais artigos. Antônio Amorim (Unicamp) trouxe reflexões sobre Ética na Pesquisa, destacando publicações recentes da ANPEd - acesse e-book gratuito produzido pela Associação - e igualmente colocando a questão em diálogo com a ciência aberta estimulada pelo SciELO. Já Claudio Nunes (UESB) apontou em sua fala processos de resistência das revistas e editores, assim como a necessidade de ambientes formativos que preparem discentes para a produção de conhecimento e a inserção da pesquisa em ambientes distintos como a gestão pública e os movimentos sociais. Com mediação de Carlos Schimidt (UFSM), todos presentes na mesa destacaram os imensos desafios postos pela pandemia, a perda de colegas e a alegria deste encontro presencial.

Encerrando a terceira edição do CONEPEd em Natal, os participantes acompanharam a conferência de Gustavo Fischman (ASU/EUA). Com sua tradicional irreverência, o pesquisador argentino e professor da Universidade do Arizona (EUA) abordou questões relativas à colaboração entre países da América Latina. Fischman chamou a atenção para a importância de se considerar questões demográficas, alternativas de financiamento e de colaborações distintas para ampliar o diálogo e superar diferenças entre os países, além de tecer elogios à perspectiva antropofágica de vanguarda brasileira, útil para entrelaçar o conhecimento produzido em diversas partes do globo. A sessão contou com coordenação da presidenta da ANPEd, Geovana Lunardi.

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